Panorama da blindagem arquitetônica no país

Por Rodrigo 08/09/2016 - 11:25 hs

Panorama da blindagem arquitetônica no país


Depois de milhares de brasileiros terem recorrido à blindagem automotiva como alternativa de proteção diante da crescente violência urbana existente em todo o Brasil, fazendo o país se tornar um dos líderes mundiais nesse quesito, outro recurso de segurança tem ganhado imenso mercado no país: a blindagem arquitetônica.
Para explicar melhor as particularidades e desafios desse mercado que cresce 35% ao ano no Brasil, a Revista Blindagem & Segurança entrevistou um dos maiores especialistas no assunto, Carlos Roberto Monte Serrat Barbosa, diretor da Blindaço.

Fundada em 2007, a empresa é uma das líderes nacionais no setor, responsável pelas principais obras de blindagem arquitetônica no Brasil, como a Sala da Presidência no Palácio do Planalto, em Brasília, a fachada da sede da SulAmérica Seguros, no Rio de Janeiro, com cerca de 3000m², as sedes do Banco Central em Curitiba, Brasília, Salvador, Belém e Belo Horizonte, além das bilheterias da Companhia de Trens dos estados de São Paulo e de Minas Gerais, cabines da Polícia Militar paulista, entre outras grandes obras.

A seguir, você confere a entrevista:


O Brasil tem uma das maiores frotas blindadas do mundo. Na blindagem arquitetônica, como está o mercado nacional?

Carlos: Hoje, o mercado de blindagem automotiva é, realmente, maior que o da blindagem arquitetônica. Mas, enquanto a primeira cresce anualmente cerca de 20% a segunda tem crescido, em média, 35%. Isso nos faz estimar que entre cinco e sete anos o segmento de blindagem arquitetônica ultrapasse o da proteção automotiva.

Qual é o perfil do público consumidor desse tipo de proteção?

Carlos: O público é amplo. A procura pela proteção blindada vem de condomínios e residências de alto padrão, casas de câmbio, agências bancárias e instituições financeiras, casas lotéricas, bases das empresas de transporte de valores, além de indústrias, empresas de Tecnologia da Informação, que hospedam servidores, joalherias e consulados, entre outros tipos de estabelecimento. Todos, claro, receosos diante da ousadia e poderio da criminalidade.

O número de empresas que atua no ramo no Brasil é crescente? E quais os riscos para o mercado desse possível crescimento?

Carlos: Atualmente, o Brasil tem cerca de 80 empresas atuantes nesse segmento. Para se ter uma ideia do crescimento do setor, há dez anos era apenas 10 empresas. Ou seja, a cada ano, oito novas empresas surgem no país. E, infelizmente, nem todas que surgem trabalham na regularidade, o que significa que não possuem certificação adequada da Polícia Civil e nem do Exército Brasileiro, órgão responsável por fiscalizar o segmento no Brasil.
A situação chega a ser preocupante. Apenas 10% das empresas existentes trabalham com produtos certificados pelo Exército e possuem os alvarás da Polícia Civil para o funcionamento.
Vale destacar que o problema não está na concorrência. Ela sempre traz benefícios para o mercado e para o consumidor final, mas somente quando é leal e saudável, o que não acontece na blindagem arquitetônica.

Muitas empresas estão vendendo produtos sem testes ou testados num fundo de quintal, com armas velhas e munições vencidas, sem laudos válidos. Isso traz ao cliente uma falsa sensação de segurança. Afinal, ele acha que está protegido, mas não está.

Quais são as principais particularidades desse segmento?

Carlos: As principais particularidades estão no entendimento da real necessidade do cliente e da indicação dos melhores produtos, bem como da aplicação do nível balístico ideal para cada projeto.
Cada projeto envolve o estudo de engenharia. É preciso analisar se as estruturas existentes comportam o peso excedente que será aplicado com os materiais blindados. Também é necessário esclarecer sobre possíveis alterações estéticas que poderão ocorrer com a aplicação dos produtos blindados, dependendo do projeto a ser executado.
Nesse sentido, é importante ressaltar que os materiais blindados são espessos e pesados, e sempre alterarão os projetos existentes. Procurar uma empresa que tenha know-how para fazer o serviço é fundamental para que a proteção agrida e/ou modifique o mínimo possível a estética do local a ser blindado.

Quais são as exigências para as empresas que atuam ou desejam atuar com blindagem arquitetônica?

Carlos: Para atuar nesse segmento, as empresas devem possuir um registro no CREA, que é o Conselho Regional de Arquitetura, assim como o engenheiro civil e/ou mecânico, que será o responsável por acompanhar o desenvolvimento e a aplicação das soluções técnicas utilizadas em cada obra.
As empresas também devem apresentar o Certificado do Exército – o TR, que é o Título de Registro do fabricante, sendo a empresa fabricante ou não do material. Devem também possuir os alvarás da Polícia Civil para cada atividade, como o comércio, transporte, fabricação, armazenamento e instalação dos materiais.
Para serem consideradas devidamente regularizadas, as empresas ainda devem apresentar o ReTEx (Relatório Técnico Experimental), um relatório emitido pelo Exército que aprova a amostra que foi enviada pela empresa fabricante de todos os materiais que serão utilizados em cada projeto. Se forem utilizadas esquadrias, vidros, portas e paredes blindadas, o fornecedor deverá apresentar os respectivos ReTEx para o nível balístico solicitado.

Quais cuidados o consumidor interessado na blindagem arquitetônica deve tomar na escolha da empresa que fará o serviço? O que avaliar nesse processo de seleção?

Carlos: É fundamental verificar se a empresa possui toda a certificação necessária para atuar no segmento. Conhecer o portfólio com os projetos já realizados é outro cuidado que dá segurança na escolha, assim como buscar saber se a empresa possui mais tempo de existência do que de garantia oferecida. Outra medida importante nesse processo é analisar se a empresa tem sede própria e, se possível, visitá-la, conhecê-la, o que dará ao consumidor mais embasamento e mais segurança para a definição da empresa que será responsável pela blindagem arquitetônica.


Quais são os principais desafios a serem enfrentados pelo setor de blindagem arquitetônica?

Carlos: O mercado terá que enfrentar as fiscalizações que deverão iniciar a partir de 2016, com uma forte atuação prometida pelo Exército. Isso porque locais supostamente blindados tiveram suas blindagens perfuradas, consequência de terem escolhido empresas clandestinas para realizarem esse tipo de serviço especializado.

Clientes responderão civil e criminalmente por terem adquirido produtos controlados de empresas sem a certificação exigida por lei, além de terem muitas vezes que refazer suas blindagens, então, com empresas certificadas.

Com isso, as demandas deverão crescer, trazendo como desafio para as empresas regularizadas do mercado a necessidade de se prepararem para atender o mercado existente e largado pelas empresas clandestinas que provavelmente serão lacradas em 2016 e 2017.